Hipertensão Arterial: doença crônica

hipertensão arterial

Mais de um bilião de pessoas no mundo sofrem de hipertensão arterial. O progresso na compreensão da hipertensão arterial deu-se a uma velocidade incomparável com o crescimento da ciência nos fiais do século passado.

O desenvolvimento da epidemiologia e biologia molecular contribuíram com novos conhecimentos sobre os mecanismos fisiopatológicos e o seu tratamento.

A actual extensão do conhecimento médico cria, simultaneamente, problemas especiais de comunicação e integração dos avanços da medicina. No entanto, o controlo da tensão arterial é uma das histórias de sucesso da medicina.

Características da hipertensão arterial

Num estudo recentemente realizado em Moçambique verifiou-se que cerca de 33,1% dos adultos moçambicanos são hipertensos, isto é têm
uma pressão arterial igualvou superior a 140/90 mmHg.

Na prática isto signifia que em cada 3 adultos, um é hipertenso.

Por outro lado a HTA é uma “doença” sem sintomas. A grande maioria das pessoas que tem uma pressão arterial elevada, por vezes até muito elevada, não tem quaisquer sintomas, o que origina que os doentes não se sintam doentes e por isso não recorram ao serviço nacional de saúde. Assim sendo, a única forma de detectar uma HTA é medir a pressão arterial a todos os adultos independentemente do motivo que os trouxe à unidade sanitária.

Uma outra característica importante da HTA é ser uma doença crónica. Isto tem dois signifiados importantes – ninguém nasce hipertenso mas se alguém, num determinado momento da sua vida, é correctamente diagnosticado como hipertenso, em princípio isto signifia que será hipertenso até ao fi da sua vida.

A HTA, na maior parte dos casos, não tem cura. Os medicamentos utilizados para tratar estes doentes baixam a sua pressão arterial, mas se forem suspensos, a pressão arterial volta a subir. Assim, uma vez instituído um tratamento, este deve ser feito até ao fi da vida do doente.

Ainda mais, um aspecto relacionado com a HTA é que por ser assintomática, os doentes não sentem motivação para tomar os medicamentos pois não vêem qualquer benefício imediato na sua toma.

Risco cardiovascular

Quando um doente de 50 anos se apresenta num hospital com uma trombose, tal não significa que ele começou a adoecer no dia ou semana anteriores.

Este doente tem, há mais ou menos tempo, uma acumulação de factores de risco (HTA, Tabagismo, Diabetes, etc.), que ao longo destes vários anos foram contribuindo para o desenvolvimento de um processo de espessamento e obstrução das suas artérias – a arterosclerose – e que culminou com o episódio de trombose que trouxe o doente ao hospital.

Consideram-se factores de risco, todos os factores que possam inflenciar a probabilidade de um determinado indivíduo vir a ter uma complicação cardiovascular no futuro. Os principais factores de risco são:

  • tabagismo;
  • diabetes melitus;
  • dislipidémia.

São ainda factores de risco importantes:

  • idade;
  • sexo;
  • história familiar de doença cardiovascular;
  • obesidade abdominal (ou central) avaliada pela medição da circunferência abdominal.

Tratamento da hipertensão arterial

A hipertensão arterial tem dois tipos de tratamentos e passamos a descrever cada uma delas:

#1 – Tratamento não medicamentoso

Como já dissemos, todos os indivíduos e particularmente os doentes, independentemente do risco e do valor da sua pressão arterial devem ser aconselhados a fazer terapêutica não medicamentosa.

A prevenção primária das doenças cardiovasculares deve ser uma preocupação fundamental de todos os trabalhadores do serviço nacional de saúde.

O contacto de um qualquer cidadão com uma unidade sanitária é um momento único que deve ser aproveitado para se fazer educação para a saúde. Assim, os fumadores devem ser aconselhados a parar de fumar e devem ser estimulados e apoiados a fazê-lo mostrando-lhes o benefício de tal atitude.

Todos os indivíduos devem ser aconselhados a fazer uma dieta pobre em sal, fazer exercício físico regular, como por exemplo, andar pelo menos 40 minutos 4 vezes por semana, comer diariamente frutas e vegetais, evitar as gorduras saturadas e as carnes vermelhas, e perder peso.

#2 – Tratamento medicamentoso

Sempre que o risco de um acidente cardiovascular seja igual oucinferior a 10%, o doente deve ser aconselhado a fazer exclusivamente terapêutica não medicamentosa, excepto se a sua pressão arterial depois de 6 meses de terapêutica não medicamentosa persistir acima de 160 mm Hg. Nesta altura devemos iniciar a terapêutica com medicamentos anti-hipertensivos.

Todos os doentes com risco superior a 10% devem iniciar terapêutica medicamentosa, depois da sua pressão arterial ter sido confimada pelo menos em duas sessões de consulta sucessivas.

Excepto em doentes já com lesões de órgão alvo, como por exemplo, um AVC prévio ou sinais evidentes de cardiopatia hipertensiva, nunca se deve iniciar terapêutica medicamentosa sem primeiro comprovar que a pressão arterial está realmente elevada numa segunda e até terceira consulta, inclusive com valores de pressão arterial da ordem dos 180/120 mm Hg.

Não esquecer de perguntar se o doente não está a tomar nesse momento anti-inflmatórios não-esteróides que poderão ser a causa da subida da pressão arterial.

Usar sempre como primeira linha uma associação de um diurético tiazídico em dose baixa e um poupador de potássio.

No formulário nacional de medicamentos existe o amilorido composto, uma associação de hidroclortiazida 50 mg e amilorido 5 mg. Meio comprimido desta combinação deve ser sempre a primeira escolha terapêutica.

A dose de hidroclortiazida nunca deve exceder os 25 mg, pois além de não se obter um benefício signifiativo em termos de redução da pressão arterial, os efeitos colaterais são muito mais importantes. Portanto, não há vantagem nenhuma em aumentar o amilorido composto de meio para um comprimido.

Os diuréticos da ansa de Henle, como a furosemida, não devem ser utilizados como anti-hipertensivos excepto, se o doente tiver uma insufiiência renal, situação em que os diuréticos tiazídicos não funcionam, ou se tiver um quadro de insufiiência cardíaca com edemas, ou ainda se se suspeitar que com a terapêutica antihipertensiva haja retenção de líquidos. Estas situações são a excepção e nunca a regra.

Como segunda linha poderemos optar por acrescentar um bloqueador dos canais de cálcio como a amlodipina ou a nifedipina.

Caso não esteja disponível qualquer um destes fármacos poder-se-á utilizar um anti-adrenérgico central como a metildopa ou a reserpina. A introdução destes fármacos deve ser feita paulatinamente aguardando que os mesmos exerçam o seu efeito hipotensor antes de se aumentarem as suas doses.

O fármaco ideal deverá ser a amlodipina, pois tem um tempo médio de vida longo e poucos efeitos colaterais quando comparado com os fármacos de acção central.

Como terceira linha e caso a associação anterior não seja suficiente para controlar a pressão arterial do doente, e se não houver contraindicações como asma ou bronquite crónica ou ainda um bloqueio aurículo-ventricular prévio, um beta bloqueador como o atenolol ou o propranolol podem ser acrescidos à terapêutica anterior.

Os inibidores do enzima de conversão, como o captopril ou o enalapril devem constituir terapêutica de quarta linha, excepto se houver já um quadro de insufiiência cardíaca ou se o doente for diabético, situação em que se pode administrar estes fármacos associados aos diuréticos tiazídicos como primeira linha.

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Autor: Augusto Constantino

Augusto Bene Tomé Constantino é Moçambicano. Nasceu na cidade de Chimoio, província de Manica. Formado em Farmácia pela Universidade Zambeze, leciona curso de Licenciatura na Faculdade de Ciências de Saúde da UniZambeze. Trabalha com microencapsulação de compostos bioativos usando biopolímeros de origem vegetal.